2 de novembro de 2015

Hereges


O escritor cubano Leonardo Padura, premiado por seu best-seller O homem que amava os cachorros (2013, Boitempo), promete repetir o mesmo sucesso com Hereges, romance histórico-policial sobre a saga do povo judeu, que vai de 1939 até os dias de hoje.

Leia um trecho:




Desde o momento em que abriu os olhos – mesmo antes de conseguir reencontrar sua desconjuntada consciência, ainda embebida em rum barato –, tendo passado a noite na casa de Tamara – que era, como já quase não podia deixar de ser, a mulher que dormia ao seu lado –, Mario Conde recebeu como uma estocada sibilina a insidiosa sensação de derrota que o acompanhava havia muito tempo. Para que se levantar? O que podia fazer do seu dia?, voltou a lhe perguntar a persistente sensação. E Conde não soube o que responder. Agoniado por aquela incapacidade de dar alguma resposta, saiu da cama tomando o maior cuidado para não perturbar o plácido sono da mulher, de cuja boca entreaberta escapavam um fio de saliva prateada e um ronco quase musical, talvez agudizado pela própria secreção.

Já sentado à mesa da cozinha, depois de tomar uma xícara de café recém-coado e acender o primeiro dos cigarros do dia, que tanto o ajudavam a recuperar sua duvidosa condição de ente racional, o homem olhou pela porta o pátio onde começavam a se instalar as primeiras luzes daquele que ameaçava ser outro calorento dia de setembro. A ausência de expectativas se tornava tão agressiva que decidiu, nesse instante, encará-la da melhor maneira que conhecia e da única forma que podia: de frente e lutando. 

Uma hora e meia mais tarde, com os poros transbordando de suor, aquele mesmo Mario Conde percorria as ruas do Cerro anunciando em altos brados, como um negociante medieval, o seu propósito desesperado: 
– Compro livros velhos! Vamos, venham vender seus livros velhos!

Desde que deixara a polícia, quase vinte anos antes, e como tábua de salvação entrara na delicadíssima – mas, à época, ainda lucrativa – atividade de compra e venda de livros de segunda mão, Conde havia praticado todas as modalidades com que se podia fazer o negócio: desde o método primitivo do vociferante anúncio de sua proposta comercial pelas ruas (que em certa época tanto ferira o seu orgulho), até a procura específica de bibliotecas indicadas por algum informante ou ex-cliente, passando por bater nas portas das casas em Vedado e Miramar que, por algum indício imperceptível para outros (um jardim descuidado, algumas janelas com o vidro quebrado), podiam sugerir-lhe a existência de livros e, sobretudo, a necessidade de vendê-los. Para sua sorte, quando conheceu, tempos depois, Yoyi Pombo, um rapaz com incontrolável instinto mercantil, e começou a trabalhar com ele apenas na busca de bibliografias selecionadas para as quais Yoyi sempre tinha os compradores certos, Conde começou a viver uma fase de prosperidade econômica que durou vários anos e que lhe permitiu dedicar-se, até com certo desregramento, às atividades que mais lhe agradavam na vida: ler bons livros e comer, beber, ouvir música e filosofar (falar merda, para ser claro) com seus mais velhos e encarniçados amigos. 

Mas sua atividade comercial não era um poço sem fundo. Desde que topara, três ou quatro anos antes, com a fabulosa biblioteca da família Montes de Oca – protegida e trancada durante cinquenta anos pelo zelo dos irmãos Dionisio e Amalia Ferrero –, nunca mais encontrou um filão tão prodigioso; e cada pedido feito pelos exigentes compradores de Yoyi implicava grandes esforços para ser atendido. O terreno, cada vez mais exaurido, enchera-se de rachaduras, como as terras submetidas a longas secas, e Conde começou a viver períodos em que as baixas eram muito mais frequentes que as altas, obrigando-o a retomar com mais frequência a modalidade pobretona e suarenta da compra nas ruas. 

Outra hora e meia mais tarde, quando já tinha atravessado parte do Cerro e levado seus gritos até o bairro vizinho de Palatino – sem obter qualquer resultado –, o cansaço, a desídia e o brutal sol de setembro o obrigaram a fechar as portas da loja e subir num ônibus que havia saído ninguém sabe de onde e que milagrosamente parou diante dele e o levou até as imediações da casa de seu sócio. 

Yoyi Pombo, ao contrário de Conde, era um empresário com visão e havia diversificado suas atividades. Os livros raros e valiosos eram apenas um de seus hobbies, afirmava, porque seus verdadeiros interesses estavam em coisas mais produtivas: a compra e venda de casas, carros, joias e objetos valiosos. Aquele jovem engenheiro que jamais havia tocado num parafuso nem entrado numa obra tinha descoberto fazia tempo, com uma clarividência sempre capaz de assombrar Conde, que o país onde viviam ficava muito longe do paraíso pintado pelos jornais e discursos oficiais, e decidiu tirar vantagem da miséria, como sempre fazem os mais capazes. Suas habilidades e sua inteligência lhe permitiram abrir várias frentes – no limite da legalidade, mas não muito longe dele –, negócios em que obtinha a renda que lhe permitia viver como um príncipe: desde comprar roupas de grifee joias de ouro até ir de restaurante em restaurante, sempre acompanhado de belas mulheres e circulando naquele Chevrolet Bel Air conversível 1957, o carro considerado por todos os conhecedores como a máquina mais perfeita, duradoura, elegante e confortável que já saiu de um fábrica norte-americana – e pela qual o rapaz tinha pagado uma fortuna, pelo menos em termos cubanos. Yoyi era, para todos os efeitos, um exemplar de catálogo do Homem Novo, supurado pela realidade do meio ambiente: alheio à política, viciado na fruição ostentatória da vida, portador de uma moral utilitarista. 
– Porra, man, que cara de merda – disse o rapaz ao vê-lo chegar todo suado, com aquele semblante qualificado com tanta precisão semântica e escatológica. 
– Obrigado – limitou-se a dizer o recém-chegado. 

E se deixou cair no sofá macio em que Yoyi, recém-saído do chuveiro depois de passar duas horas numa academia de ginástica privada, aproveitava o tempo assistindo em sua tevê de plasma de 52 polegadas um jogo de beisebol das grandes ligas norte-americanas. 

Como costumava acontecer, Yoyi o convidou para almoçar. A empregada que cozinhava para o rapaz havia preparado nesse dia um bacalhau à biscainha, arroz congrí, plátanos en tentación e uma salada de muitas verduras que Conde devorou com fome e perfídia, ajudado por uma garrafa de Pesquera reserva que Yoyi tirou do freezer onde conservava seus vinhos à temperatura exigida pela umidade dos trópicos. 

Enquanto tomavam café na varanda, Conde voltou a sentir uma pontada da frustrante aflição que o perseguia. 
– Não está dando mais, Yoyi. As pessoas não têm nem jornais velhos... 
– Sempre aparece algo, man. Você não pode se desesperar – disse o outro enquanto acariciava, como era seu costume, a enorme medalha de ouro com a efígie de Nossa Senhora que, pendurada numa corrente grossa do mesmo metal, caía sobre sua protuberância peitoral, como um tórax de pombo, à qual devia seu apelido.
– E se não me desesperar, que merda vou fazer? 
– Farejo no ambiente que vamos receber uma encomenda grande – disse Yoyi, e até cheirou o ar quente de setembro –, e você vai se encher de pesos...


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Leonardo Padura Fuentes nasceu em Havana em 1955. Formado em Letras (Spanish Language and Literature) pela Universidade de Havana, trabalhou como escritor, jornalista e crítico literário até a década de 1990, quando ganhou reconhecimento internacional por uma série de romances policiais estrelando seu mais famoso personagem, o detetive Mario Conde. Mas foi com o romance O homem que amava os cachorros que Padura se consolidou no mundo literário, ganhando prestígio para além do gênero policial. Traduzida para vários países (como Espanha, Portugal, França e Alemanha), a obra recebeu diversos prêmios internacionais – Prix Initiales (França, 2011), Prix Roger Caillois (França, 2011), Premio de la Critica (Cuba, 2011), XXII Prix Carbet de la Caraïbe (2011) e V Premio Francesco Gelmi di Caporiacco (Itália, 2010). Em 2012, Padura recebeu o Premio Nacional de Literatura de Cuba. Os direitos de adaptação para o cinema de O homem que amava os cachorros foram recentemente adquiridos pela produtora francesa Compagnie des Phares et Balises.


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