
Leia um trecho:
*
Desde o momento em que abriu os olhos – mesmo antes de conseguir reencontrar
sua desconjuntada consciência, ainda embebida em rum barato –, tendo passado
a noite na casa de Tamara – que era, como já quase não podia deixar de ser, a
mulher que dormia ao seu lado –, Mario Conde recebeu como uma estocada
sibilina a insidiosa sensação de derrota que o acompanhava havia muito tempo.
Para que se levantar? O que podia fazer do seu dia?, voltou a lhe perguntar a
persistente sensação. E Conde não soube o que responder. Agoniado por aquela
incapacidade de dar alguma resposta, saiu da cama tomando o maior cuidado
para não perturbar o plácido sono da mulher, de cuja boca entreaberta escapavam
um fio de saliva prateada e um ronco quase musical, talvez agudizado pela
própria secreção.
Já sentado à mesa da cozinha, depois de tomar uma xícara de café recém-coado
e acender o primeiro dos cigarros do dia, que tanto o ajudavam a recuperar sua
duvidosa condição de ente racional, o homem olhou pela porta o pátio onde
começavam a se instalar as primeiras luzes daquele que ameaçava ser outro calorento
dia de setembro. A ausência de expectativas se tornava tão agressiva que
decidiu, nesse instante, encará-la da melhor maneira que conhecia e da única
forma que podia: de frente e lutando.
Uma hora e meia mais tarde, com os poros transbordando de suor, aquele
mesmo Mario Conde percorria as ruas do Cerro anunciando em altos brados,
como um negociante medieval, o seu propósito desesperado:
– Compro livros velhos! Vamos, venham vender seus livros velhos!
Desde que deixara a polícia, quase vinte anos antes, e como tábua de salvação
entrara na delicadíssima – mas, à época, ainda lucrativa – atividade de compra
e venda de livros de segunda mão, Conde havia praticado todas as modalidades
com que se podia fazer o negócio: desde o método primitivo do vociferante anúncio
de sua proposta comercial pelas ruas (que em certa época tanto ferira o seu
orgulho), até a procura específica de bibliotecas indicadas por algum informante
ou ex-cliente, passando por bater nas portas das casas em Vedado e Miramar que,
por algum indício imperceptível para outros (um jardim descuidado, algumas
janelas com o vidro quebrado), podiam sugerir-lhe a existência de livros e, sobretudo,
a necessidade de vendê-los. Para sua sorte, quando conheceu, tempos
depois, Yoyi Pombo, um rapaz com incontrolável instinto mercantil, e começou
a trabalhar com ele apenas na busca de bibliografias selecionadas para as quais
Yoyi sempre tinha os compradores certos, Conde começou a viver uma fase de
prosperidade econômica que durou vários anos e que lhe permitiu dedicar-se,
até com certo desregramento, às atividades que mais lhe agradavam na vida: ler
bons livros e comer, beber, ouvir música e filosofar (falar merda, para ser claro)
com seus mais velhos e encarniçados amigos.
Mas sua atividade comercial não era um poço sem fundo. Desde que topara,
três ou quatro anos antes, com a fabulosa biblioteca da família Montes de Oca –
protegida e trancada durante cinquenta anos pelo zelo dos irmãos Dionisio e
Amalia Ferrero –, nunca mais encontrou um filão tão prodigioso; e cada pedido
feito pelos exigentes compradores de Yoyi implicava grandes esforços para ser
atendido. O terreno, cada vez mais exaurido, enchera-se de rachaduras, como
as terras submetidas a longas secas, e Conde começou a viver períodos em que
as baixas eram muito mais frequentes que as altas, obrigando-o a retomar com
mais frequência a modalidade pobretona e suarenta da compra nas ruas.
Outra hora e meia mais tarde, quando já tinha atravessado parte do Cerro
e levado seus gritos até o bairro vizinho de Palatino – sem obter qualquer
resultado –, o cansaço, a desídia e o brutal sol de setembro o obrigaram a fechar
as portas da loja e subir num ônibus que havia saído ninguém sabe de onde e que
milagrosamente parou diante dele e o levou até as imediações da casa de seu sócio.
Yoyi Pombo, ao contrário de Conde, era um empresário com visão e havia
diversificado suas atividades. Os livros raros e valiosos eram apenas um de seus
hobbies, afirmava, porque seus verdadeiros interesses estavam em coisas mais
produtivas: a compra e venda de casas, carros, joias e objetos valiosos. Aquele
jovem engenheiro que jamais havia tocado num parafuso nem entrado numa obra
tinha descoberto fazia tempo, com uma clarividência sempre capaz de assombrar Conde, que o país onde viviam ficava muito longe do paraíso pintado pelos jornais
e discursos oficiais, e decidiu tirar vantagem da miséria, como sempre fazem
os mais capazes. Suas habilidades e sua inteligência lhe permitiram abrir várias
frentes – no limite da legalidade, mas não muito longe dele –, negócios em que
obtinha a renda que lhe permitia viver como um príncipe: desde comprar roupas
de grifee joias de ouro até ir de restaurante em restaurante, sempre acompanhado
de belas mulheres e circulando naquele Chevrolet Bel Air conversível 1957, o
carro considerado por todos os conhecedores como a máquina mais perfeita,
duradoura, elegante e confortável que já saiu de um fábrica norte-americana – e
pela qual o rapaz tinha pagado uma fortuna, pelo menos em termos cubanos.
Yoyi era, para todos os efeitos, um exemplar de catálogo do Homem Novo,
supurado pela realidade do meio ambiente: alheio à política, viciado na fruição
ostentatória da vida, portador de uma moral utilitarista.
– Porra, man, que cara de merda – disse o rapaz ao vê-lo chegar todo suado,
com aquele semblante qualificado com tanta precisão semântica e escatológica.
– Obrigado – limitou-se a dizer o recém-chegado.
E se deixou cair no sofá macio em que Yoyi, recém-saído do chuveiro depois
de passar duas horas numa academia de ginástica privada, aproveitava o tempo
assistindo em sua tevê de plasma de 52 polegadas um jogo de beisebol das grandes
ligas norte-americanas.
Como costumava acontecer, Yoyi o convidou para almoçar. A empregada
que cozinhava para o rapaz havia preparado nesse dia um bacalhau à biscainha,
arroz congrí, plátanos en tentación e uma salada de muitas verduras que Conde
devorou com fome e perfídia, ajudado por uma garrafa de Pesquera reserva que
Yoyi tirou do freezer onde conservava seus vinhos à temperatura exigida pela
umidade dos trópicos.
Enquanto tomavam café na varanda, Conde voltou a sentir uma pontada da
frustrante aflição que o perseguia.
– Não está dando mais, Yoyi. As pessoas não têm nem jornais velhos...
– Sempre aparece algo, man. Você não pode se desesperar – disse o outro
enquanto acariciava, como era seu costume, a enorme medalha de ouro com a
efígie de Nossa Senhora que, pendurada numa corrente grossa do mesmo metal,
caía sobre sua protuberância peitoral, como um tórax de pombo, à qual devia
seu apelido.
– E se não me desesperar, que merda vou fazer?
– Farejo no ambiente que vamos receber uma encomenda grande – disse
Yoyi, e até cheirou o ar quente de setembro –, e você vai se encher de pesos...
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