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23 de agosto de 2015

Sobreviventes do inferno – sobre o livro 'Hiroshima', de John Hersey

Por Alberto Nannini



Você acredita no inferno? Talvez não. Mesmo dentre os cristãos, são poucos que acreditam que Deus permitiria algo assim. Aquele horror de fogo, aridez, putrefação. Sofrimento além do imaginável, no qual a morte seria uma dádiva.

Quer acredite ou não, o inferno seria apavorante. Haveria ali pessoas deformadas pelo fogo e pelas provações. Sedentas, desesperançadas, desfiguradas. Sem abrigo, sem alimento, sem o céu azul sobre suas cabeças. Desconjuntadas, mutiladas. Literalmente derretidas. Apenas aguardando o fim daquele tormento.

Mas esse inferno é real. Fez setenta anos agora em agosto que isso (ou algo pior) tocou a face da terra e a mudou para sempre. Aconteceu em duas cidades japonesas.

Garotinho e gordão

Quando eu era garoto, a guerra fria entre EUA e a antiga União Soviética ainda existia. Eu já havia lido muito sobre as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, que tinham até nome: Little boy e Fat man. Numa tradução livre, “garotinho” e “gordão”.

Naquela época, sempre pairava a ameaça de alguém utilizá-las novamente – sendo que, àquela altura, já eram dezenas de vezes mais potentes que as lançadas.

Informações também vinham de filmes, como “Jogos de guerra” e principalmente, “O Dia seguinte”, que detalhava o pós-guerra nuclear.

O que mais me impressionava é que eu sabia que não havia exageros nos filmes. O que eu não sabia (e demorei a descobrir) é que mesmo as piores projeções que li ou assisti não eram tão ruins quanto o que realmente aconteceu.

A narrativa técnica...

Dia 6 de agosto de 1945 foi quando a Little Boy explodiu 600 metros acima de Hiroshima, às 8h15 da manhã. Das 245 mil pessoas que residiam ali, cerca de 100 mil morreram nos primeiros instantes. Estas foram as sortudas. Pior para as que sobreviveram. Foram elas (das quais outras 100 mil estavam feridas) que testemunharam o inferno sobre a terra.


O efeito térmico da explosão vaporizou instantaneamente centenas, talvez milhares de pessoas, que estavam próximas e diretamente expostas. Nada sobrou delas. A temperatura no âmago da explosão era de um milhão de graus Celsius, e no chão, chegou a 6.000°C – mesma temperatura da superfície do sol, capaz de fundir a maioria dos materiais conhecidos.

A onda de choque resultante do ar expandido e se deslocando a 1.500km/h, com uma pressão de cerca de dez toneladas por m², derrubou construções como se fossem castelos de cartas. O brilho no momento da explosão equivalia a cem sóis. Todas as pessoas que estavam com o rosto voltado em direção à explosão, sem algum anteparo, foram cegadas.

A narrativa mitológica – Faetonte...

Descrever de forma técnica o poder da bomba causa espanto. Mas um evento como esse vai muito além de dados de física. É algo que entra para a história, que cria um marco. Uma data e um estigma, que jamais serão esquecidos. Por conta do absurdo e também do ineditismo: um evento como aquele, causado pelo homem, nunca havia acontecido antes.

Curiosamente, há muitas semelhanças com uma lenda bem anterior, da mitologia grega. Os gregos contavam que Faetonte, filho de Hélio e Climene, ao ganhar uma corrida, pediu como prêmio para seu pai que o deixasse conduzir os quatro cavalos que puxavam a biga que continha o sol – algo que Hélio fazia todos os dias. Ele deixou. Mas Faetonte não tinha destreza, e o sol caia rumo a Terra. Tudo já estava ardendo, quando Zeus fulminou Faetonte com um raio e Hélio retomou o controle da carruagem e resgatou a estrela de fogo, salvando o planeta.


Talvez esta fábula se baseie em algum evento real – como a queda de um meteoro. Seria bem similar. De qualquer forma, milênios depois, o sol “caiu da biga” e tocou mesmo a terra. Qual história os antigos gregos contariam se soubessem o que aconteceu em Hiroshima?

E a narrativa faltante

John Hersey não é grego. É um jornalista americano, que legou ao mundo a narrativa que faltava sobre Hiroshima: a jornalística. Na verdade, ele não fez apenas isso: ele entregou aquela que é tida por muitos como a maior reportagem de todos os tempos, e também a precursora do chamado “jornalismo literário”. Publicada na revista The New Yorker, em 31 de agosto de 1946, foi posteriormente compilada num livro – Hiroshima.

Em pouco mais de 100 páginas, o autor mesclou um levantamento técnico feito com grande apuro jornalístico (que lhe rendeu o prêmio Pulitzer), com uma abordagem original e humanizada – a hecatombe nuclear narrada por seis sobreviventes: duas mulheres e quatro homens. Após entrevistá-los, a trajetória de cada um deles foi reconstituída: desde pouco antes da explosão; no momento em que ela acontece; por todos os dolorosos dias seguintes, e até um ano depois. E ainda, relatou também como estavam estas pessoas depois de 40 anos. Meia dúzia de hibakushas – palavra japonesa para designar os sobreviventes da bomba – dão um relato testemunhal sobre o evento que mudou o mundo.

Hiroshima, de John Hersey



É pela narrativa dos menores detalhes que se entende minimamente o que aconteceu ali. Pessoas presas nos escombros de suas casas demolidas, implorando socorro – enquanto o fogo avançava, consumindo quarteirões, bairros, a cidade inteira. Os sobreviventes perambulando, feridos em diversos graus, e os poucos ilesos se sentindo culpados. Olhando além e vendo só ruínas onde antes havia uma cidade. Matando a fome com vegetais colhidos já cozidos embaixo da terra, pelo enorme calor da explosão.

Li este livro há uns doze anos atrás – e, no entanto, muitas passagens estavam bem vívidas na minha memória, antes mesmo da releitura feita para escrever esta resenha. Trechos como este abaixo:

“Quando retornava com a água, o jesuíta se perdeu, ao desviar de um tronco caído, e, enquanto procurava o caminho, ouviu uma voz, perguntando entre os arbustos: ‘O senhor tem alguma coisa para beber?’. O padre viu um uniforme. Julgando tratar-se de um soldado, aproximou-se, mas, ao penetrar na vegetação, deparou com uns vinte homens, todos no mesmo estado horripilante: o rosto inteiramente queimado, as órbitas vazias, as faces marcadas pelo líquido que escorrera das córneas derretidas. (Deviam estar olhando para cima, quando a bomba explodiu; talvez pertencessem à defesa antiaérea.) Sua boca se reduzira a uma chaga intumescida e coberta de pus, e eles não podiam juntar os lábios para receber o bico da chaleira. O padre Kleinsorge utilizou uma haste de grama como canudinho e dessa maneira lhes aliviou a sede. ‘Não enxergo nada’, um deles falou.” (pág. 39)

Apesar da crueza, John Hersey não focalizou o terror. Ele entrevistou os seis sobreviventes, e eles falaram. Se o horror aparece o tempo todo é porque ele estava por todos os lados, em tudo o que olhavam, em todas suas recordações.

O fato é que esse livro notável é um dos mais importantes escritos modernos. Como obra, é uma série impressionante de acertos: o tom correto, a apuração, a costura dos depoimentos, as escolhas estilísticas. Por exemplo, enquanto se narra as vidas dos sobreviventes 40 anos depois, vão se colocando as datas em que outros países detonaram suas bombas – mostrando que Hiroshima pode ter sido apenas o começo, mas pode haver um fim. Aliás, a hipótese de uma guerra nuclear era conhecida por um acróstico: MAD – do inglês “destruição mútua assegurada”, e também a palavra “louco” naquele idioma.

Um pouco do outro lado

Há uma teoria bem conhecida que diz que as “bombas-A” pouparam milhões de vidas. Eis a explicação: o Japão estava empenhado na guerra, e o custo de sua derrota por vias convencionais seria o de milhões de baixas, dos dois lados. Ou seja, os Estados Unidos enfrentariam não apenas milhões de soldados, prontos para morrer pelo seu imperador, mas também, no caso de uma invasão por terra, todos os cidadãos, inclusive mulheres e até crianças. Eles dispunham ainda de uma frota de milhares de kamikases com aviões, além da disciplina oriental característica e uma vontade inquebrantável. Um inimigo duríssimo.

Mas, ao se detonar as bombas, mostrou-se que não havia como continuar a guerra – o Japão seria varrido do planeta por esta arma definitiva.

Alguns historiadores contam, porém, que isso foi um blefe: as três únicas bombas prontas na ocasião foram detonadas: uma de teste no deserto de Los Álamos, e as duas restantes nas infelizes cidades japonesas.

De qualquer forma, o Japão se rendeu, e a guerra acabou. As mais de 200 mil vítimas imediatas das bombas, fora as indiretas, foram o preço. Uma espécie de exemplo.

Após ler o livro e conhecer um pouco a tragédia, soa muito frio dizer isso. Desrespeitoso até. Mesmo “operando no modo racional”, é bastante difícil tomar uma posição a respeito, sequer ter uma opinião sobre a equação “deixo a guerra prosseguir com milhões de mortos ou a termino, com 200 mil mortes imediatas, calcinadas de forma tenebrosa, e mais outras centenas de milhares de mortes depois”?

Porém, para quem decide, a lógica da guerra é vencer, com o mínimo custo para o seu lado. O outro lado é o inimigo. E também havia o receio “vamos desenvolver a arma, porque eles poderão fazê-lo antes”.

Enfim, outro registro a se fazer era a brutalidade dos soldados japoneses com seus prisioneiros. Uma fonte cita que eles vitimaram 22 milhões de pessoas, entre chineses e coreanos. De forma bárbara, estupravam as mulheres e chacinavam até seus bebês.

Não que isso justifique algo, lógico. Só pretende tirar um pouco da condição de vítima do Japão, e no máximo, prova que não havia bonzinhos na história.

Bem, a nós, não desumanizados por uma guerra nem por uma fidelidade estúpida a um governo, império ou o que seja, resta se abismar. E constatar: na guerra, quando há inocentes, são sempre os primeiros a morrer.

O legado da bomba

A Bomba Atômica dizimou duas cidades, e se impregnou profundamente na cultura da humanidade. Obras foram inspiradas por ela. Memoriais, personagens, literatura, filmes. Também acarretou incontáveis estudos, teses e teorias, em diversas áreas do conhecimento.

A carnificina instantânea que ela causou em segundos só foi superada com muito método e esforço (pelo holocausto, genocídios e outras chacinas). Porque o homem é tão diligente em massacrar seus semelhantes que mesmo a Bomba Atômica não causou isoladamente o maior número de vítimas na guerra.

Talvez não tenha sido nem a mais cruel, apesar de tudo. Jogar uma bomba é quase impessoal. Tokio mesmo foi devastada por bombas convencionais, bem como dezenas de outras cidades, ao longo dos anos. Também porque a bomba em questão é uma força da natureza – seu imenso poder não distingue aliados de inimigos. Quem estiver no seu raio de alcance será vaporizado, incendiado, derretido.

Note bem, não se trata de relativizar a crueldade. Desenvolver um processo caríssimo, que envolveu direta ou indiretamente algumas das mentes mais brilhantes da história (como Einstein e Bohr), e projetá-lo num artefato que pode ser usado como “A” arma, é bastante cruel sim. Mas o grande ponto é que, para o homem, a crueldade é quase sempre secundária. O que realmente interessa é a eficácia: aniquilar o inimigo rapidamente. O objetivo de todas as guerras.

Resposta dolorosa

Daí, a discussão fica maior: por que há as guerras? As respostas (provisórias) envolvem muitas ciências, como História, Antropologia, Psicologia. Ainda que não se consiga chegar a nenhum consenso, é possível partir de um fato incontestável: a guerra acompanha o homem desde sempre. A busca por armas, também. Isso joga alguma luz à gênese das bombas atômicas: a arma mais poderosa conhecida. Instrumento de dissuasão e de chantagem.

No nosso mundo, o homem é capaz de domar a força elementar das estrelas e utilizá-la como arma. Isso diz muito sobre nossa natureza. Nascidos para matar. Saber disso é importante, e saber das conseqüências desses atos, mais ainda.

Justamente por isso que ler o livro Hiroshima, de John Hersey, é mais ou menos como envelhecer ou adquirir conhecimento: difícil, doloroso – mas indispensável.

Décadas de lágrimas


Concluindo, um dos muitos aprendizados que vem desta leitura é que nenhuma resposta seria suficiente para explicar às vítimas seu martírio. Por que isso aconteceu. Por que com elas. Ou por que sua vizinhança se transformou, literalmente, no inferno. Em um piscar de olhos.

Então, também para saber que tipo de humanos somos, é bom e necessário que, pelo menos, as hecatombes de Hiroshima e de Nagasaki ainda façam chorar. Mesmo depois de 70 anos.

Especialmente depois de 70 anos.


* * *
 

Alberto Nannini é graduado em Letras, especialista em Linguística, e colaborador do Livros S/A.


* * * * *


ADENDO:

• O arsenal nuclear guardado pelas nações, durante a guerra fria, era estimado em 40 mil ogivas – bem mais do que suficiente para dizimar o planeta inteiro.

• A Litlle Boy tinha 0,15 megaton – ou equivalia a 150 mil toneladas de TNT. A Fat Man, 0,20 megatons. Bombas de hidrogênio se provaram mais potentes. A maior bomba desenvolvida pelos EUA foi a Castle Bravo, de 15 megatons – ou exatamente 100 vezes mais forte que a Little Boy. A URSS desenvolveu uma bomba mais potente – a Tsar. Uma delas, testada, teve o poder de 50 megatons. E é tecnicamente possível fabricar uma de 100 megatons.

• Se uma Castle Bravo fosse detonada acima da Praça da Sé, em São Paulo, estima-se que haveria perto de nove milhões de mortos, e outros sete milhões de feridos. A bola de fogo teria quase três quilômetros de diâmetro, e apagaria todo o centro da cidade. As fatalidades beirando 100% chegariam até Guarulhos (quase 7km de distância do centro, em linha reta). Pessoas em Arujá, a 34km do centro, poderiam ter queimaduras de 3º grau.

• Se a detonação fosse da Tsar mais potente, seriam 11 milhões e meio de mortos, e quase dez milhões de feridos. O raio de alcance da radiação térmica que causaria queimaduras de 3º grau chegaria próximo a Campinas, de um lado, e até o Atlântico, passando as cidades litorâneas do Guarujá e Itanhaém. (Há variações por conta do relevo, como a serras da Cantareira e do mar, e das condições climáticas).

• Quer ver o efeito da Fat Man ou da Litlle Boy em sua cidade? Simule aqui nesse site: http://nuclearsecrecy.com/nukemap/


23 de julho de 2015

Nação zumbi – resenha do livro 'Nada a invejar', de Barbara Demick

Por Alberto Nannini


Já se perguntou o que faria se estourasse uma epidemia zumbi? Gosta dessa temática? Já assistiu algum episódio de The Walking Dead ou leu alguma de suas HQs? Ou algum filme a respeito, de George Romero ou de outros?

Se respondeu “sim” a qualquer das perguntas anteriores, será mais fácil; mas, mesmo que não tenha respondido, te convido a se imaginar dentro da seguinte cena:

É noite, e você está caminhando há mais de uma hora no meio de uma estrada asfaltada, sem ter avistado sequer um carro. A única iluminação é das estrelas e da lua. Ao seu lado, aquela pessoa que você quer muito namorar - mas vocês não tiveram coragem sequer de se darem as mãos, quanto mais de se declararem. Está um frio absurdo, que atravessa suas roupas finas como se estivessem nus.

Vocês conversam amenidades, mas ambos pensam que as coisas andam muito estranhas. De repente, ouvem um barulho na beira da estrada: crianças esqueléticas brigam para comer os restos de algum animal. Procuram passar silenciosamente por elas. Mais adiante, quase tropeçam em ossadas que não puderam ser identificadas.

Agora, ouvem barulho de algo se aproximando; pulam para o acostamento, e se escondem deitados numa valeta. Alguns seres andando com os passos arrastados passam murmurando. Estão buscando o que comer. Aí você se lembra que a última vez que mastigou algo não foi hoje e nem ontem. Está tonto(a) e fraco(a). Quer beijar seu par, mas trocaria qualquer coisa por comida. 
Só que não há muitas opções. Não dá para enxergar na escuridão, mas é uma terra devastada: não há qualquer vegetação, nem a mais rasteira. Nem animais, muito menos frutas ou cereais. Você já ouviu falar de canibais, mas não quer acreditar que isso está acontecendo. Porém, toda vez que ouve alguém se aproximando, corre para se esconder. Melhor prevenir.

A esta cena, adicione-se mais elementos típicos da temática zumbi: alguns canibais mortos-vivos; uma grande praga que corrói os cérebros das pessoas; um exército que mata os sobreviventes e fugitivos. E pessoas esfaimadas e maltrapilhas, que procuram não ser afetadas pela praga e que comem qualquer coisa que encontrem – inclusive terra, casca de árvores, madeira, esterco, ossos. Todos com medo de todos.

Há apenas uma diferença, entre o universo zumbi e essa cena que pedi para você se imaginar dentro: é que toda essa descrição é real, aconteceu de verdade – uma reconstrução fiel de passagens relatadas em um livro de não-ficção.

Por isso, comparei a dinastia Kim, na Coreia do Norte, a uma praga, e o que viveram os norte-coreanos a um apocalipse zumbi. Vejamos se exagerei.

Kimlândia

A jornalista americana Barbara Demick foi correspondente do jornal Los Angeles Times em Seul, na Coreia do Sul, de 2001 a 2006. Por força de seu ofício e da proximidade, pode ouvir muitos relatos sobre a Coreia do Norte – o país mais fechado do mundo. Mais que isso, ela pode entrevistar vários fugitivos do regime dos Kim – a única dinastia de ditadores absolutistas que não pertence aos museus (de horrores).

O resultado é o livro de não ficção “Nada a invejar”, da Cia das Letras. Com apuro jornalístico, a autora reuniu, durante anos, muito material sobre a Coreia do Norte. Depois, costurou com habilidade artigos, reportagens, relatos e entrevistas, que revelam um painel de como era viver sob o jugo dos Kim.

Capítulos contam histórias dos dissidentes do regime, entrevistados, e também sobre seus familiares e outras pessoas. Eles vão e vem, no livro. Algumas histórias se cruzam, bem como muitas referências e situações, relatadas por mais de um ponto de vista.

O jovem casal que queria namorar e se encontrava para caminhar na escuridão absoluta é real. Também o fato de não haver energia elétrica, nem carros, nem comida. E de haver relatos de canibalismo. E do país inteiro ser devastado pela fome (estima-se que entre 600 mil e dois milhões de pessoas morreram ali de fome, até 1998; cerca de 10% da população. Mas, nas localidades mais pobres, o índice pode ter sido uma morte a cada cinco pessoas).

Pessoas que tinham em comum viverem, quase todas, uma situação de miserabilidade absurda. Toda uma população (exceto os poderosos de praxe) igualada em passar necessidades e sequer conseguir atender a duas necessidades primordiais: estarem alimentados e aquecidos.

Mas toda essa pobreza talvez não seja a pior coisa.

A praga

Para nossa eterna e irremediável vergonha, mesmo num planeta que produz alimento mais do que suficiente para todos, há muitos que morrem de fome ainda hoje. Há países inteiros vivendo em situação de miséria, e populações dizimadas pela fome, sede e falta de mínimas condições de saneamento e higiene. Este cenário piora muito ao saber que, embora um tanto da responsabilidade caiba a cada um de nós, há aqueles que tem a maior parcela de culpa: os governantes. Os poderosos, que podem fazer algo, mas se preocupam apenas em desviar dinheiro, enriquecer e enganar seu povo. Alguns ainda exigem que estes lhe prestem culto, como se fossem deuses.

Pois os Kim são o exemplo mais gritante deste modelo. Três gerações de tiranos a escravizar um país, e exigir um culto devotado a eles de uma maneira difícil de descrever. Há centenas de estátuas dos tais líderes – algumas do tamanho de prédios, como a que ilustra a capa do livro. Toda família precisa ter um retrato de Kim Il-sung – o grande pai, e Kim Jong-il – seu filho, o grande general, em suas paredes. Ambos são falecidos, e o neto/filho Kim Jong-un agora governa. O tal retrato estar desalinhado ou sujo é falta grave, passível de punição.

As punições são pesadíssimas. De confisco do pouco que se tenha, à extradição para campos de trabalho forçado. Ou a velha pena de morte: de maneira ativa, por fuzilamento, ou de maneira passiva: por congelamento, extenuação, tortura e afins. E as punições podem não se restringir apenas ao suposto infrator, mas se estender a toda sua família, e persistir por gerações.

Uma ditadura implacável que vitimou milhões e lhes roubou o raciocínio. Como? Com uma lavagem cerebral ininterrupta, estendida por décadas. Aliás, mais uma semelhança com os zumbis – uma praga que lhes corrói o cérebro e lhes transforma em seres sem autonomia.

Esta tal lavagem cerebral é feita com o controle absoluto de toda informação, a veiculação sistemática de mentiras deslavadas, e as tais punições pesadas para quem desrespeitar este arranjo. Some-se a isso a criação de uma cultura da delação – até mesmo dentro da mesma família: irmãos, filhos e pais poderiam denunciar uns aos outros, para se pouparem. O que eles denunciavam? Qualquer palavra mal colocada contra os líderes ou o regime. Um riso fora de hora, ou qualquer gesto que pudesse ser interpretado como desrespeito. Até mesmo a simples suspeita de insubordinação já podia ser suficiente para uma temporada nos campos de concentração, do qual dificilmente se sairia vivo.

Engaiolados

Posso ser categórico (ainda que isso anule minhas chances de visitar o país): o regime dos Kim é um pesadelo pior que qualquer ficção apocalíptica. Não é que nada lá se salve hoje, nem que os norte-coreanos jamais tenham ouvido falar de felicidade: tais como um passarinho que nasceu em uma gaiola, eles não sabem o que é liberdade. Ou abundância. Ou seja, sua felicidade é mais por conta do referencial e da resiliência humana. Relativizar isso é cômodo, para nós, supernutridos e enfastiados. Aliás, lá, ser gordo é um sinal enorme de status (que diferença...).

De qualquer forma, o livro de Barbara dá voz a pessoas que sobreviveram a esta praga. Gente que viveu décadas sob o jugo do silêncio, da fome, da delação mútua, até incorporarem que este seria o único mundo existente e possível.

Mas estes poucos, ao atravessarem clandestinamente a fronteira da China, se dão conta de que lá (onde não é exatamente um exemplo de abertura e liberdade), dentre outras “mordomias”, quase todas as pessoas costumam comer arroz todos os dias. Essa é uma felicidade indizível para eles, ao ponto de arriscarem suas vidas e de seus familiares, para chegarem ao país vizinho.

Talvez a ditadura dos Kim não seja particularmente pior que as muitas ditaduras horrorosas que outros povos desafortunados já passaram ou passam. Todas envolvem miséria, injustiça, fenecimento, e uma tristeza infinita. Mas deve ser a mais bizarra, porque não se contenta em apenas contar uma mentira institucionalizada, e punir com a morte que a conteste; nem tampouco em ameaçar e coagir as pessoas a ficarem em silêncio e não reclamar do absurdo que vivem, como qualquer ditadura que se preze. Ela também exige que eles acreditem, de todo o coração e com toda a fé, que vivem no melhor mundo possível, e que não há “nada a invejar” do mundo de fora. Como as crianças são ensinadas a cantar, desde pequenas.



Aliás, esta autossuficiência é a raiz da “filosofia Juche”, criada por Kim Il-sung: um pastiche comunista que prega a não-dependência de nada que venha de fora. Ironicamente, o país, de autossuficiente, não tem nada; só existe ainda por pelo menos três fatores: terem se especializado em chantagens militares, pelas ajudas internacionais (que, óbvio, são desviadas e utilizadas como trunfo por poucos ligados ao poder), e pelo tamanho do “abacaxi” que seria depor a dinastia de gordinhos malucos e ter que absorver um povo que não entende conceitos elementares nas nações ocidentais.

Exageros?

Há paralelos entre o que eles vivem lá dentro e situações aqui “fora”? Apenas em partes. Algumas religiões empreendem uma lavagem cerebral semelhante. Não à toa, seus governantes são ricos – alguns até bilionários. Mas não punirão com a morte quem sair dela, quem comentar algo sobre outra religião, ou algo diferente do ensinado. Ou seja, não há um regime absoluto de opressão-manipulação-controle institucionalizado, tudo ao mesmo tempo. Mesmo ditadores costumam enfrentar grupos de resistência. Na Coreia do Norte, que executa até parentes dos governantes, isso é impossível.

Já li alguns artigos que saíram em defesa daquele país. Quase todos têm como raiz o ódio ao imperialismo americano, e transformam a desgraça de gerações de norte-coreanos em uma espécie de “Fla-x-Flu” ideológico. Acho patético, sinceramente, pensar em comparar as “mazelas” dos norte-americanos com as dos norte-coreanos, ou assemelhar os dois regimes. É até desrespeitoso.

Mas e a manipulação de informações aqui fora? E qual seria a isenção de uma jornalista norte-americana ao criticar um inimigo declarado de seu país?

A manipulação aqui fora não chega sequer perto da lá de dentro. Para escrever esta resenha, li outros livros e diversos artigos sobre aquele país (veja o “Leia também” ao final). Há um uníssono de vozes e relatos que confirmam a narrativa da jornalista. Registro também que poucas vezes na leitura do livro detectei algo que pudesse ser interpretado como tendencioso (além do estranhamento natural que aquela realidade causa). Não recordo de ter lido nada que ridicularizasse aquele povo sofrido. Ao contrário, ela reconheceu a dificuldade de olhá-los, com nossa visão ocidental (relativo à deificação de Kim Il-sung):

“A Coreia do Norte inspira a parodia. Rimos dos excessos da propaganda e da credulidade do povo. Mas é preciso levar em conta que sua doutrinação começou na infância, durante as catorze horas diárias passadas nas creches das fábricas; que, pelos quinze anos subsequentes, cada canção, cada filme, cada jornal, cada artigo e cartaz eram concebidos para deificar Kim Il-sung; que o país era hermeticamente fechado para deixar de fora qualquer coisa que pudesse lançar alguma dúvida sobre a divindade de Kim Il-sung. Quem teria condições de resistir?” (pág 67)

Ou seja, não só acho os relatos dela dignos de crédito, como acho que, ao dar voz aos refugiados, lhes deu algo que eles não conheceram a vida toda.

Enfim, pode ser que você pouco conheça ou se importe com a Coreia do Norte. Mas pode ser que o tema lhe interesse, como a mim. Dentre outros motivos, porque acho importantíssimo entender que a liberdade e os mecanismos democráticos que vivemos no nosso cotidiano – criticar o governo, ir votar, poder expressar o que sente – são algo impensável para pessoas que estão vivas do outro lado do mundo. Elas nem sequer sonham com tais coisas, de tão inacessíveis.

Pensar nisso dá uma nova perspectiva de vida.

Também por isso, indico que leia o livro de Demick. É uma narrativa mais impressionante (e detalhada) que muita ficção apocalíptica. E, de quebra, ensina o quanto o mundo pode ser estranho, e o quanto somos afortunados.


 ALBERTO NANNINI
 É graduado em Letras, especialista em Linguística, e colaborador do Livros S/A. 


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