Já se perguntou o que faria se estourasse uma epidemia zumbi? Gosta dessa temática? Já assistiu algum episódio de The Walking Dead ou leu alguma de suas HQs? Ou algum filme a respeito, de George Romero ou de outros?
Se respondeu “sim” a qualquer das perguntas anteriores, será mais fácil; mas, mesmo que não tenha respondido, te convido a se imaginar dentro da seguinte cena:
É noite, e você está caminhando há mais de uma hora no meio de uma estrada asfaltada, sem ter avistado sequer um carro. A única iluminação é das estrelas e da lua. Ao seu lado, aquela pessoa que você quer muito namorar - mas vocês não tiveram coragem sequer de se darem as mãos, quanto mais de se declararem. Está um frio absurdo, que atravessa suas roupas finas como se estivessem nus.
Vocês conversam amenidades, mas ambos pensam que as coisas andam muito estranhas. De repente, ouvem um barulho na beira da estrada: crianças esqueléticas brigam para comer os restos de algum animal. Procuram passar silenciosamente por elas. Mais adiante, quase tropeçam em ossadas que não puderam ser identificadas.
Agora, ouvem barulho de algo se aproximando; pulam para o acostamento, e se escondem deitados numa valeta. Alguns seres andando com os passos arrastados passam murmurando. Estão buscando o que comer. Aí você se lembra que a última vez que mastigou algo não foi hoje e nem ontem. Está tonto(a) e fraco(a). Quer beijar seu par, mas trocaria qualquer coisa por comida.
Só que não há muitas opções. Não dá para enxergar na escuridão, mas é uma terra devastada: não há qualquer vegetação, nem a mais rasteira. Nem animais, muito menos frutas ou cereais. Você já ouviu falar de canibais, mas não quer acreditar que isso está acontecendo. Porém, toda vez que ouve alguém se aproximando, corre para se esconder. Melhor prevenir.
A esta cena, adicione-se mais elementos típicos da temática zumbi: alguns canibais mortos-vivos; uma grande praga que corrói os cérebros das pessoas; um exército que mata os sobreviventes e fugitivos. E pessoas esfaimadas e maltrapilhas, que procuram não ser afetadas pela praga e que comem qualquer coisa que encontrem – inclusive terra, casca de árvores, madeira, esterco, ossos. Todos com medo de todos.
Há apenas uma diferença, entre o universo zumbi e essa cena que pedi para você se imaginar dentro: é que toda essa descrição é real, aconteceu de verdade – uma reconstrução fiel de passagens relatadas em um livro de não-ficção.
Por isso, comparei a dinastia Kim, na Coreia do Norte, a uma praga, e o que viveram os norte-coreanos a um apocalipse zumbi. Vejamos se exagerei.
Kimlândia
A jornalista americana Barbara Demick foi correspondente do jornal Los Angeles Times em Seul, na Coreia do Sul, de 2001 a 2006. Por força de seu ofício e da proximidade, pode ouvir muitos relatos sobre a Coreia do Norte – o país mais fechado do mundo. Mais que isso, ela pode entrevistar vários fugitivos do regime dos Kim – a única dinastia de ditadores absolutistas que não pertence aos museus (de horrores).
O resultado é o livro de não ficção “Nada a invejar”, da Cia das Letras. Com apuro jornalístico, a autora reuniu, durante anos, muito material sobre a Coreia do Norte. Depois, costurou com habilidade artigos, reportagens, relatos e entrevistas, que revelam um painel de como era viver sob o jugo dos Kim.
Capítulos contam histórias dos dissidentes do regime, entrevistados, e também sobre seus familiares e outras pessoas. Eles vão e vem, no livro. Algumas histórias se cruzam, bem como muitas referências e situações, relatadas por mais de um ponto de vista.
O jovem casal que queria namorar e se encontrava para caminhar na escuridão absoluta é real. Também o fato de não haver energia elétrica, nem carros, nem comida. E de haver relatos de canibalismo. E do país inteiro ser devastado pela fome (estima-se que entre 600 mil e dois milhões de pessoas morreram ali de fome, até 1998; cerca de 10% da população. Mas, nas localidades mais pobres, o índice pode ter sido uma morte a cada cinco pessoas).
Pessoas que tinham em comum viverem, quase todas, uma situação de miserabilidade absurda. Toda uma população (exceto os poderosos de praxe) igualada em passar necessidades e sequer conseguir atender a duas necessidades primordiais: estarem alimentados e aquecidos.
Mas toda essa pobreza talvez não seja a pior coisa.
A praga
Para nossa eterna e irremediável vergonha, mesmo num planeta que produz alimento mais do que suficiente para todos, há muitos que morrem de fome ainda hoje. Há países inteiros vivendo em situação de miséria, e populações dizimadas pela fome, sede e falta de mínimas condições de saneamento e higiene. Este cenário piora muito ao saber que, embora um tanto da responsabilidade caiba a cada um de nós, há aqueles que tem a maior parcela de culpa: os governantes. Os poderosos, que podem fazer algo, mas se preocupam apenas em desviar dinheiro, enriquecer e enganar seu povo. Alguns ainda exigem que estes lhe prestem culto, como se fossem deuses.
Pois os Kim são o exemplo mais gritante deste modelo. Três gerações de tiranos a escravizar um país, e exigir um culto devotado a eles de uma maneira difícil de descrever. Há centenas de estátuas dos tais líderes – algumas do tamanho de prédios, como a que ilustra a capa do livro. Toda família precisa ter um retrato de Kim Il-sung – o grande pai, e Kim Jong-il – seu filho, o grande general, em suas paredes. Ambos são falecidos, e o neto/filho Kim Jong-un agora governa. O tal retrato estar desalinhado ou sujo é falta grave, passível de punição.
As punições são pesadíssimas. De confisco do pouco que se tenha, à extradição para campos de trabalho forçado. Ou a velha pena de morte: de maneira ativa, por fuzilamento, ou de maneira passiva: por congelamento, extenuação, tortura e afins. E as punições podem não se restringir apenas ao suposto infrator, mas se estender a toda sua família, e persistir por gerações.
Uma ditadura implacável que vitimou milhões e lhes roubou o raciocínio. Como? Com uma lavagem cerebral ininterrupta, estendida por décadas. Aliás, mais uma semelhança com os zumbis – uma praga que lhes corrói o cérebro e lhes transforma em seres sem autonomia.
Esta tal lavagem cerebral é feita com o controle absoluto de toda informação, a veiculação sistemática de mentiras deslavadas, e as tais punições pesadas para quem desrespeitar este arranjo. Some-se a isso a criação de uma cultura da delação – até mesmo dentro da mesma família: irmãos, filhos e pais poderiam denunciar uns aos outros, para se pouparem. O que eles denunciavam? Qualquer palavra mal colocada contra os líderes ou o regime. Um riso fora de hora, ou qualquer gesto que pudesse ser interpretado como desrespeito. Até mesmo a simples suspeita de insubordinação já podia ser suficiente para uma temporada nos campos de concentração, do qual dificilmente se sairia vivo.
Engaiolados
Posso ser categórico (ainda que isso anule minhas chances de visitar o país): o regime dos Kim é um pesadelo pior que qualquer ficção apocalíptica. Não é que nada lá se salve hoje, nem que os norte-coreanos jamais tenham ouvido falar de felicidade: tais como um passarinho que nasceu em uma gaiola, eles não sabem o que é liberdade. Ou abundância. Ou seja, sua felicidade é mais por conta do referencial e da resiliência humana. Relativizar isso é cômodo, para nós, supernutridos e enfastiados. Aliás, lá, ser gordo é um sinal enorme de status (que diferença...).
De qualquer forma, o livro de Barbara dá voz a pessoas que sobreviveram a esta praga. Gente que viveu décadas sob o jugo do silêncio, da fome, da delação mútua, até incorporarem que este seria o único mundo existente e possível.
Mas estes poucos, ao atravessarem clandestinamente a fronteira da China, se dão conta de que lá (onde não é exatamente um exemplo de abertura e liberdade), dentre outras “mordomias”, quase todas as pessoas costumam comer arroz todos os dias. Essa é uma felicidade indizível para eles, ao ponto de arriscarem suas vidas e de seus familiares, para chegarem ao país vizinho.

Exageros?
Há paralelos entre o que eles vivem lá dentro e situações aqui “fora”? Apenas em partes. Algumas religiões empreendem uma lavagem cerebral semelhante. Não à toa, seus governantes são ricos – alguns até bilionários. Mas não punirão com a morte quem sair dela, quem comentar algo sobre outra religião, ou algo diferente do ensinado. Ou seja, não há um regime absoluto de opressão-manipulação-controle institucionalizado, tudo ao mesmo tempo. Mesmo ditadores costumam enfrentar grupos de resistência. Na Coreia do Norte, que executa até parentes dos governantes, isso é impossível.
Já li alguns artigos que saíram em defesa daquele país. Quase todos têm como raiz o ódio ao imperialismo americano, e transformam a desgraça de gerações de norte-coreanos em uma espécie de “Fla-x-Flu” ideológico. Acho patético, sinceramente, pensar em comparar as “mazelas” dos norte-americanos com as dos norte-coreanos, ou assemelhar os dois regimes. É até desrespeitoso.
Mas e a manipulação de informações aqui fora? E qual seria a isenção de uma jornalista norte-americana ao criticar um inimigo declarado de seu país?
A manipulação aqui fora não chega sequer perto da lá de dentro. Para escrever esta resenha, li outros livros e diversos artigos sobre aquele país (veja o “Leia também” ao final). Há um uníssono de vozes e relatos que confirmam a narrativa da jornalista. Registro também que poucas vezes na leitura do livro detectei algo que pudesse ser interpretado como tendencioso (além do estranhamento natural que aquela realidade causa). Não recordo de ter lido nada que ridicularizasse aquele povo sofrido. Ao contrário, ela reconheceu a dificuldade de olhá-los, com nossa visão ocidental (relativo à deificação de Kim Il-sung):
“A Coreia do Norte inspira a parodia. Rimos dos excessos da propaganda e da credulidade do povo. Mas é preciso levar em conta que sua doutrinação começou na infância, durante as catorze horas diárias passadas nas creches das fábricas; que, pelos quinze anos subsequentes, cada canção, cada filme, cada jornal, cada artigo e cartaz eram concebidos para deificar Kim Il-sung; que o país era hermeticamente fechado para deixar de fora qualquer coisa que pudesse lançar alguma dúvida sobre a divindade de Kim Il-sung. Quem teria condições de resistir?” (pág 67)
Ou seja, não só acho os relatos dela dignos de crédito, como acho que, ao dar voz aos refugiados, lhes deu algo que eles não conheceram a vida toda.
Enfim, pode ser que você pouco conheça ou se importe com a Coreia do Norte. Mas pode ser que o tema lhe interesse, como a mim. Dentre outros motivos, porque acho importantíssimo entender que a liberdade e os mecanismos democráticos que vivemos no nosso cotidiano – criticar o governo, ir votar, poder expressar o que sente – são algo impensável para pessoas que estão vivas do outro lado do mundo. Elas nem sequer sonham com tais coisas, de tão inacessíveis.
Pensar nisso dá uma nova perspectiva de vida.
Também por isso, indico que leia o livro de Demick. É uma narrativa mais impressionante (e detalhada) que muita ficção apocalíptica. E, de quebra, ensina o quanto o mundo pode ser estranho, e o quanto somos afortunados.
ALBERTO NANNINI
É graduado em Letras, especialista em Linguística, e colaborador do Livros S/A.
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| Pyongyang, de Guy Delisle |
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| Os olhos dos animais sem cauda, de Soon Ok lee |
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| Fuga do campo 14, de Blaine Harden |




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